Administra o teu Blog

Cria o teu Blog Já! Fácil e Grátis

Trópico de Câncer

Surrealismo
O caráter decadente de uma Paris dos anos 30, num misto de ficção e realidade, sordidez e extravagância. Henry Miller, protagonista em primeira pessoa, é a representação do ser humano em busca da identidade latente, manchada por uma época que remonta um palco deplorável tomado por fome, depravação e fúria. A válvula de escape? O sexo. Visão de mundo? Mórbida e sem esperanças.
À nudez e crueza do relato marginal, adicione-se uma pitada significativa de perspicácia e bom humor: eis Trópico de Câncer. Na concepção do próprio autor: “Isto não é um livro, no sentido comum da palavra. Não, isto é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza...” Considerado 'Romance Maldito', Trópico de Câncer foi aclamado na França e proibido nos EUA, terra natal de Miller, até os anos 60. Um clássico. E os clássicos nunca deixam de ser atuais.

Uma das melhores obras que já tive o prazer de ler. Uma obra limpa, sincera, e, por isso, belíssima.

Trechos maravilhosos (porque, como diz Breton, "somente o maravilhoso é belo"):

"Havia um toque de primavera no ar, uma primavera venenosa e maléfica que parecia irromper das bocas de esgoto".

"Toda refeição começa com sopa. Seja de cebola, de tomate, de legumes ou qualquer outra coisa, a sopa sempre tem o mesmo gosto. No mais das vezes, seu gosto dá a impressão de que cozeram nela um pano de enxugar pratos - levemente rançosa, embolorada, escumosa. Vejo Eugene escondê-la na cômoda depois da refeição. Fica lá, apodrecendo, até a refeição seguinte. A manteiga também é escondida na cômoda; depois de três dias, tem o gosto do dedão do pé de um cadáver".

"Fui lançado para fora do mundo como uma bala".

"O papel de parede com que os homens de ciência cobriram o mundo da realidade está caindo aos pedaços. O grande prostíbulo em que eles transformaram a vida não exige decoração; é essencial apenas que o esgoto funcione convenientemente. A beleza, aquela beleza felina que na América nos segura pelos testículos, está acabada. Para compreender a nova realidade é necessário primeiro desmantelar o esgoto, abrir os canos gangrenados de que se compõe o sistema geniturinário que fornece os excretos da arte. O cheiro do dia é permanganato e formaldeído. O esgoto está entupido por embriões estrangulados".

"Durante sete anos andei, dia e noite, só com uma coisa na mente: ela. Se houvesse um cristão tão fiel a Deus quanto eu a ela, nós todos hoje seríamos Jesus Cristo".

"As ruas eram meu refúgio. E nenhum homem pode compreender o encanto das ruas até ser obrigado a procurar refúgio nelas, até ter-se tornado uma palha jogada para cá e para lá pelo próprio zéfiro que sopra".

"Outrora eu pensava que ser humano era o mais alto objetivo que um homem podia ter, mas vejo agora que isso se destinava a destruir-me. Hoje sinto orgulho em dizer que sou inumano, que não pertenço a homens e governos, que nada tenho a ver com crenças e princípios. Nada tenho a ver com a maquinaria rangente da humanidade - eu pertenço à Terra! Digo isso deitado em meu travesseiro e posso sentir os chifres nascendo em minhas têmporas".

Se fosse digitar todos os trechos que me agradaram, digitaria praticamente todo o livro (...) Eis estes aí para que se possa adquirir uma idéia de Miller, o anti-lugar-comum. :)

Surreal.

Homem Meus braços
Minhas pernas
Minhas antenas
Meus olhos
Minha boca
Minhas orelhas

Tudo se volta para uma direção
Eu não tenho opção alguma
Minha liberdade me condena
A ser tão desprovida de grilhões

É um soltar da imaginação
Que se converte em loucura
Essa demência consentida
Passa a ser característica forte
É o rastro que se deixa
A impressão que permanece

Surrealismo

Palavras ao vento jogadas
Com sentido
Sem sentido
Que importa?
Elas são sinceras
Porque não penso para registrá-las
Elas são sensatas
Porque não me esforço
Para aparentar
Uma criatura que não sou

Eu
Você
Nós
E a imaginação
Deixo que flua por onde quiser
Como quiser

Que esbofeteie as faces dos reais
Há momentos em que disfarçar
Já não vale mais nada

Esqueci a máscara
E me senti liberta

Deixei a persona na cabeceira da cama
E as algemas romperam por si sós.

Isso é ser surreal.
E ponto final.

Inútil. Mas não para mim.

aaaa As pessoas são desprovidas da fagulha essencial de tato. Sensibilidade é estado - sentimento, emoção? - raríssimo, presente somente nos espíritos mais agudos. Mata-se a Arte por um punhado de religiosidade, algumas notas de dinheiro, um "ter mais o que fazer". Mata-se a Literatura com um best-seller torpe, enlatado, esse negócio produzido para as massas. Best-sellers são desprovidos de tato. É um insulto louvar a imundície de Dan Brown - oportunista, mesquinho, insensível - e fazer de um Kafka apenas relíquia, belo para se olhar sob o prisma do hoje como algo "ultrapassado". A Humanidade é um mar de insultos. Cada grito da boca do povo é um rugir desconcertado; seu hábito é descompassado, sua existência não possui vida, seus filhos são pequenos déspotas com brilho nos olhos e sujeira nos lábios. Essa horda de desordeiros sem causa nos doa o resto de si própria, entrega seu nada como herança para as gerações posteriores, faz de si uma importância suprema que não permite entrever o mar de hipocrisia em que nada... Somos filhos de ninguém. O legado que deixaremos - que importa? Estupraram o significado do hedonismo; esse prazer aclamado do aqui, agora, intensamente, já não é digno de qualquer admiração. Olho à minha volta e sinto repugnância. Vejo as multidões e não consigo exercer o pouco de tolerância que ainda possuo. O mundo é uma pedra no meu sapato. E não me é permitido jogá-la fora. Se jogá-la, também pereço. Eis o mais cruel dos paradoxos.

Uma paráfrase de Miller, please.

mmm "Isto não é un livro [blog], no sentido comum da palavra. Não, isto é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza..." Eis meu blog.